Mudança de país = mudança de comportamento?

Mudança de país = mudança de comportamento?

Você já reparou se seu comportamento mudou desde que começou a morar nos EUA? O que você faz diferente que não fazia no Brasil? O que passou a apreciar?

comportamento3Eu, por exemplo, percebi que muitas atitudes vieram juntas na mala. Eu nunca me preocupei em fazer a parada total do veículo diante dos sinais de PARE no Brasil. Trouxe esse hábito comigo. Até o dia em que um policial me parou e eu recebi um “warning” – famoso “preste atenção”. Eu, que nunca precisei conversar com um policial antes na vida, quis ainda justificar: “Officer, eu acabei de chegar do Brasil e por conta da violência nós nunca paramos totalmente nos sinais de PARE”. O policial, sem nenhuma expressão no rosto na qual eu pudesse prever o grau da infração que eu cometi, declarou: “Mrs, você está dirigindo nos EUA agora e aqui a lei exige parada total onde existir a placa PARE”. Sabe aquela sensação de vergonha quando a gente faz algo que poderia ter feito direito e não fez? Hoje digo com propriedade: adoro ser disciplinada! Funciona, dá resultados a curto e longo prazo e é mais seguro para todos nós. Case closed!

Essa situação foi uma das primeiras lições de cidadania que tive por aqui.  O cumprimento da lei é o que me impressiona. Aqui fica difícil  “dar um jeitinho”. Como tudo funciona melhor que no Brasil, nós nem temos que nos preocupar em “dar um jeitinho”. Isso reforça meu compromisso em cumprir regras e leis.

Ao longo dos anos muitas foram as situações. Para ilustrar esse post,  escolhi as 6 mudanças de comportamento que considero terem sido para melhor:

1)     Parar para o pedestre atravessar…
Essa é clássica no Brasil. Pedestre e ciclista não são prioridades nas ruas. Quando visito o Brasil, agora eu paro para o pedestre atravessar e já fui insultada pelo próprio pedestre. Sim, o pedestre achou que eu estava demorando demais e começou a acenar para eu passar logo; ou será que ele achou que eu estava maldosamente planejando uma pegadinha e passaria por cima dele ao pisar na rua? Será que por isso decidiu me insultar com aquela ira? Quando um cidadão foi abusado durante anos com a falta de educação no trânsito das grandes cidades brasileiras é previsível que ele reaja com desconfiança. Por isso, quando volto ao Brasil, tenho que fazer alguns ajustes quando preciso dirigir.

Criança fofa e sorridente que abre os bracinhos para ir no colo. Irresistível. Filho da Cacá Brigadeira

Criança fofa e sorridente que abre os bracinhos para ir no colo. Irresistível. Filho da Cacá Brigadeira

2)     Não tocar em bebês ou crianças fofíssimas que você não conhece…
Alguém precisa amarrar meus braços para eu não pegar crianças no colo. É incontrolável. E sou daquelas que solta um sonoro “OINNN, que gracinha!”. Durante nossa mudança do Brasil para o Colorado, meu marido, ainda dentro do avião, delicadamente me avisou: “Não toque em crianças que você não conhece em território americano. Lá não é Brasil e as pessoas se incomodam com estranhos brincando com os filhos deles. Além de tudo, tocar em crianças tornou-se um tabu por conta de casos de abuso infantil, portanto controle-se”. Achei o fim da picada! Como não posso apertar, beijar e brincar com crianças alheias? Na nossa pacata cidade do interior de São Paulo, as crianças fofinhas do nosso antigo bairro são de todo mundo! Eu pensava assim. Hoje entendo que por uma razão cultural ou maternal algumas brasileiras como eu não conseguem controlar o entusiasmo diante de um bebê fofinho e sorridente. Entretanto, desde que nasci como mãe aqui nos EUA, não quero que estranhos aproximem-se de meus filhos; isso pode ser instintivo, adaptação cultural ou um pouco de germofobia. Seja lá o que for, eu não consigo mais agarrar crianças sem pedir permissão. E as mães agradecem, eu acho.

Cheetos, a lagartixa com pedigree.

Cheetos, a lagartixa com pedigree.

3) Treinar, cuidar e  ter responsabilidade moral, social e ambiental por animais de estimação…
Ordem e progresso também é isso. Ruas mais limpas, cachorro que não incomoda ninguém com o latido, a maioria com coleiras e sem pulgas, além das leis que exigem sua responsabilidade social com os animais. Será que um dia a gente chega lá no Brasil? Nós tivemos um Leopard Geko (uma lagartixa com pedigree) chamado Cheetos. O inocente ficou doente e perdeu o apetite. Nem mesmo os grilos e minhocas gourmet ele aceitava. Tive que levá-lo ao veterinário. Sabe aquele momento quando você verifica o valor da consulta e se questiona: “Puxa, estou gastando U$150 para cuidar de uma lagartixa? E se eu tentar a sorte de cuidar em casa conforme sugestão?”. Não consegui. Paguei a consulta, e o Cheetos foi cuidado na clínica e logo depois doado para alguém que sabe cuidar de réptil. Lição aprendida? Não dê nomes aos animais que não sabe cuidar ou queira adotar. Você se apega e aqui até uma lagartixa com pedigree vai custar caro!

4) Proibido por convenção a prática do “pop in” – aparecer na casa de alguém sem avisar antes.
Quem nunca fez isso atire a primeira pedra! Claro que além de uma questão cultural depende do nível de intimidade na amizade e da coragem também. Aqui  nenhuma das duas justificativas são aceitáveis. A regra dos bons costumes pede que você ligue antes ou será altamente julgado como “intrusivo” se aparecer na casa de alguém inesperadamente. E faz sentido. Só não sei explicar porque a gente faz isso no Brasil, e nos piores momentos… E ninguém tem coragem de dizer: “Essa não é uma boa hora, volte mais tarde”. A gente põe mais água no feijão e dificilmente perdemos a oportunidade de bater papo.

5)     Ser amigável, gentil e simpático…
Marca registrada do brasileiro popularmente impressa nessa frase: Estranho é um amigo que você não conhece ainda. Concorda com isso? Eu particularmente concordo. Entretanto,  aqui amizades são construídas muito lentamente. Uma americana me explicou que pelo simples fato de ser difícil de desfazer uma amizade é que eles começam a construir a confiança aos poucos. Aceitei essa explicação sem contestar, pois faz muito sentido.  Hoje percebo que manter amizades é uma responsabilidade moral e social.  Além disso,  requer um esforço de ambas as partes, assim como em qualquer outro relacionamento que se torna mais íntimo. Importante mencionar que a pessoa que me explicou sobre essa e outras nuances da cultura americana, era uma estranha na época. Ficamos amigas, pelo menos dentro das minhas regras. No entanto, demorou um pouco mais para ela me considerar ”amiga”.

6)     Troca de produtos…
Ah, o poder de arrepender-se e receber seu dinheiro de volta. Estamos sempre comprando coisas que não precisamos, porém, podemos devolvê-las! Nada mais justo. No Brasil, já cheguei a me sentir coagida e envergonhada ou até mesmo insultada. Se bater arrependimento,  um doloroso e burocrático processo de troca será instituído. E o dinheiro de volta na hora? Em casos muito específicos. O processo está longe de ser simples e rápido como aqui. Quer uma prova? Veja a lista de produtos que já devolvi e minhas justificativas: legumes que tinham sabor de agrotóxico; remédio comprado no Havaí e que por ser alérgica à um dos ingredientes pude devolver aqui na Califórnia; carnes que não tinham o sabor que eu esperava; roupas que não combinavam com as outras peças que eu tinha em casa; um lustre enorme que comprei pela internet; e as campeãs das devoluções na minha casa: frutas do Costco. A compra de frutas é sempre um risco. Fatores ambientais, nem sempre controláveis, podem  determinar o quão doce ou suculenta a fruta pode estar. E até elas, podemos trocar sem intimidação ou desconfianças.  God bless the American customer service!

E você? Conseguiu identificar-se com alguma dessas situações? Já observou alguma mudança de comportamento desde que começou a viver nos EUA? Algo específico no Vale do Silício? Esse último poderia ser o tema para outro post: Mudanças de Comportamento das Mulheres do Vale. Vamos falar disso?

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2017-07-18T06:56:27+00:00

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