Vitrine: Tatiana Hochgreb

Vitrine: Tatiana Hochgreb

O Brasileiras do Vale está sempre querendo compartilhar histórias de Brasileiras talentosas que estão fazendo a diferença aqui na Bay Area. A Tatiana é uma dessas mulheres. Natural de São Paulo, se mudou para San Francisco para fazer seu pós-doutorado. Sua carreira é impressionante e em uma área particularmente desafiadoras para as mulheres. Conheça a trajetória dessa cientista.


 

Como era sua vida no Brasil?

Eu morava em São Paulo, e nos anos antes de me mudar fazia minha pesquisa de doutorado no InCor. Após concluir o curso de Ciências Moleculares, fiz o doutorado em Biologia do Desenvolvimento cardíaco pelo ICB-USP. Nessa época, também cursava os últimos anos de Odontologia na FO-USP e quando terminei o curso em fevereiro de 2005, defendi minha tese de doutorado em maio, e em julho vim para São Francisco.

O que levou à mudança para os EUA?

Eu me mudei para San Francisco para fazer o pós-doutorado na UCSF. Eu obtive uma bolsa de pós-doutorado pela Pew Foundation, e trabalhei na UCSF num projeto utilizando Zebrafish, um modelo muito usado em estudos de genética e que na época era um sistema novo e pouco usado no Brasil. Estudei um mecanismo que controla a assimetria de órgãos digestivos, como pâncreas e fígado. Após um ano na UCSF, fui convidada pela Profa. Marianne Bronner para me juntar a um grande projeto estudando desenvolvimento craniofacial em Zebrafish na Caltech e me mudei para Pasadena.

Quais foram as suas primeiras impressões sobre os EUA?

É difícil dizer, pois acho que com o tempo vamos nos acostumando e ao mesmo tempo percebendo as nuances… E também percebendo que não existe um padrão geral para se classificar um local, região ou país.

Acho que aqui há uma gentileza no trato das pessoas. Também aprecio o jeito direto de dizer as coisas. Acho super interessante essa abertura e respeito deles por sermos  diferente, do nosso próprio jeito. Pelo menos nas experiências por que passei, percebo que cada um tem seu estilo de vida, suas ideias, e isso é totalmente normal e aceitável.

Acho incrível a curiosidade pelo conhecimento, como as pessoas se interessam por ciência e pelas questões do mundo.Hoje em dia está um pouco diferente, mas até pouco tempo atrás o Brasil ainda era considerado um pouco “exótico”, não se ouvia música brasileira por aqui, não havia Havaianas nas lojas, ou água de coco e açaí no supermercado, então havia muita curiosidade (e estereótipos) sobre o Brasil.

O que foi parecido e o que foi diferente da sua expectativa?

Não sei se eu tinha grandes expectativas. Eu sabia que vinha para trabalhar e estudar bastante, que o custo de vida era caro e que teria uma vida regrada para fazer tudo dar certo. E de fato foi assim. Trabalhei e estudei bastante, mas também fiz bons amigos e certamente foi um período de grande aprendizado e amadurecimento.

O que foi diferente é que eu achava que vinha para SF por alguns anos e voltaria para o Brasil para continuar ali minha carreira acadêmica, mas por causa do meu projeto acabei me mudando para continuar meu postdoc na Caltech, em Pasadena. Neste período me casei e há dois anos voltei definitivamente para SF, mas num caminho profissional um pouco diferente.

O que você gostaria que vc soubesse antes de se mudar?

Acho que sabia o suficiente para me mudar, e a UCSF me deu apoio e orientação na questão de trabalho, visto, e até um software para ajudar a declarar imposto de renda. Eu tive sorte e logo encontrei ótimos amigos que me deram muitos conselhos e ajuda. Talvez tenha sido bom essa certa “ingenuidade” de sair do Brasil e começar a vida aqui apenas com o que cabia em duas malas, mas foi fundamental ter uma rede de amigos e colegas do laboratório para ir aprendendo cada coisa no seu tempo e encontrando as soluções para cada novo desafio.

Profissionalmente, tive que aprender a fazer perguntas mais diretas, sem dar muitas voltas como fazemos no Brasil. Por exemplo numa entrevista de trabalho, aqui é aceitável e até esperado perguntar se as pessoas gostam e recomendam o ambiente do trabalho, e a resposta pode ser “não”.

Quais foram os seus maiores desafios?

Acho que o maior desafio prático foi no início, ter que aprender a resolver todas as questões burocráticas – social security, conta bancária, como conseguir um telefone ou cartão, encontrar um lugar para morar sem ter histórico de crédito. Em retrospectiva a gente percebe quantos detalhes importantes tivemos que aprender, e sem dúvida foi fundamental estabelecer/encontrar uma rede de apoio de amigos e colegas para se ajudar a entender e navegar o sistema.

Um grande desafio foi a decisão de não voltar ao Brasil. Embora fizesse sentido do ponto de vista pessoal, foi um longo processo de me repensar profissionalmente para esta nova trajetória.

O que você acha que aprendeu com essa experiência?

Ainda estou aprendendo, mas em resumo é que cada desafio é na verdade uma oportunidade, e que às vezes é preciso passar por esta fase de melancolia e incubação para perceber isso.

No meu  caso, ao invés de seguir o plano inicial que eu tinha pensado há muitos anos e que parecia bem razoável, foi a oportunidade de realmente identificar aqueles valores centrais que me entusiasmam e inspiram de fato, que me deixam acordada não de preocupação, mas de tantas ideias.

Você teve algum mentor? Alguém te inspirou e orientou?

Sim, felizmente tive muitos mentores, a quem sou eternamente grata. Seria uma lista imensa.

Professores, orientadores, amigos – desde os tempos de escola, graduação, doutorado, pós-doutorado, até agora. São pessoas que me receberam em seus laboratórios e/ou abriram novos caminhos de conhecimento, gastaram tempo pensando comigo sobre meus projetos e minha carreira e até hoje me acompanham. Colegas e amigos – na USP, na UCSF e Caltech – com quem trabalhei dias e noites, e com quem entre experimentos e resultados (ou falta deles) tive muitas conversas sobre ciência, carreira, valores. Agora estamos em diversas partes do mundo, mas ainda nos reconectamos e reencontramos de maneiras diferentes, e é realmente interessante como os ciclos se fecham e se conectam.

Qual o momento mais marcante da sua jornada?

A vinda para os EUA foi uma fase muito importante, e certamente de transição entre ser estudante e definir o que seria profissionalmente. Certamente foi marcante o período após a decisão de não voltar ao Brasil permanentemente, pois significava ter que me reinventar. Hoje vejo que essa tem sido uma grande oportunidade de fazer e criar coisas novas, mas foi um processo longo.

Eu pensava que terminaria meu postdoc e voltaria ao Brasil para continuar ali minha carreira acadêmica, mas por questões pessoais resolvi que ao invés voltaria para SF. Eu adoro SF, mas do ponto de vista profissional esta mudança de planos me fazia questionar meu real interesse em continuar na área acadêmica, se seria apenas uma opção natural após minha formação.

Eu acabei percebendo que minha escolha pela carreira acadêmica estava relacionado ao meu grande interesse por educação, e que sendo cientista nos EUA me faltava um pouco do aspecto de educadora que teria sendo professora no Brasil. Então comecei a me interessar por projetos ligados à educação e ao Brasil, e como poderia inventar uma maneira de me manter conectada a estas questões. É um desafio, porque é uma carreira “alternativa” em ciência, mas está sendo uma experiência super interessante de conectar toda a minha formação, e de descobrir maneiras de usar a experiência para desenhar novos caminhos.

Como é seu trabalho hoje?

Hoje tenho vários projetos, em andamento ou “concepção”, e neste sentido é fantástico estar “respirando o ar” do Vale do Silício e ver como é possível encontrar ferramentas para projetos “faça-você-mesmo” e efetivamente levar adiante ideias.

Um projeto super legal que estamos começando é a SciBr Foundation, uma nonprofit baseada em Cambridge (MA), com o objetivo de conectar, inspirar e mobilizar os cientistas, artistas, educadores e profissionais brasileiros e amigos do Brasil para promover o desenvolvimento de projetos relacionados ao Brasil, nas áreas de inovação, cultura, educação, etc.

Alinhado a esta ideia central de conectar cientistas e a sociedade, estou trabalhando com a Fundação Lemann, desenhando e coordenando o programa Ciência sem Fronteiras/Lemann. A Fundação Lemann apoia os bolsistas de mestrado, doutorado e pós-doutorado em sete universidades parceiras: Columbia, Harvard, MIT, Stanford, UCLA, Yale e Illinois em Urbana-Champaign. Faz também parte do programa o Faculty Travel Grant para conectar professores destas universidades com o Brasil. Já temos iniciativas bem legais tendo início a partir desta conexão da rede CsF/Lemann no Brasil e EUA, e estamos desenhando projetos ligados à inovação, colaborações interdisciplinares, e educação de ciências no Brasil.

Quais são os seus planos?

Meu plano é continuar trabalhando neste ecossistema de ciência, inovação e educação, conectando os talentos brasileiros com as questões do Brasil. Tenho grande interesse em educação, e algumas ideias sobre o papel e possibilidades do cientista neste processo. Estou super animada com um novo projeto para conectar os cientistas com educação, para fazer esta ponte entre experiência do cientista que lida com o conhecimento e descoberta no dia-a dia, e os professores e estudantes de escolas públicas, que talvez nem sempre têm claro o contexto para o que aprendem nas aulas de ciência.

Conte um pouco do PubTech e seus objetivos

A ideia do PUBTechSF é inspirada no PUB-Boston – um grupo de Pesquisadores e Universitários de Boston, que já existe há 5 anos e começou com um grupo de amigos cientistas que perceberam que se conheciam socialmente, mas não sabiam de fato do trabalho que cada um estava desenvolvendo em suas pesquisas. Criou-se então este modelo de reuniões baseadas em conteúdo técnico-científico multidisciplinar, com palestrantes convidados da comunidade brasileira. Hoje existem grupos PUBs em Boston, NY, Philladelphia, DC e San Diego.

Na Bay Area, o primeiro grupo PUB-SF foi organizado em outubro de 2013, por iniciativa do Jair Lage Siqueira-Neto, que agora é professor na UCSD, mas na época estava na UCSF, reunindo principalmente cientistas da área médica e biomédica.

O PUBTechSF no formato atual foi lançado no final de 2014, com o “Tech” para integrar brasileiros tanto da área acadêmica quanto da indústria, sejam cientistas, empreendedores e/ou estudantes com interesse em ciência, tecnologia, educação e cultura na região da Baía de São Francisco. O objetivo do PUBTechSF é destacar o trabalho, descobertas e projetos de pesquisadores e profissionais brasileiros na região de SF, e ao mesmo tempo servir de ponto de encontro dessa comunidade.

Fizemos uma reunião inaugural em dezembro de 2014 no Consulado do Brasil em SF, e em 2015 tivemos reuniões na Stanford e UC Berkeley. A próxima reunião será no dia 16 de setembro no Vale do Silício

Conte um pouco da ONG que você planeja abrir e seus objetivos

Qual delas? 🙂

Como disse, estamos lançando a SciBr Foundation, que é uma organização educacional and científica dedicada a promover intercâmbio cultural e cooperação entre os EUA e Brasil nas áreas de educação, ciência, inovação e pesquisa. Na equipe todos temos um background científico e diversas atuações e interesses, e a ideia é criar espaços interdisciplinares e canais inovadores para conectar os cientistas e o capital intelectual brasileiro cada vez mais com a sociedade.

Qual a sua dica pra quem está começando a trilhar esse mesmo caminho?

Não sei se já posso chamar esta nova fase de “caminho” ou dar algum conselho nesta fase “em construção”.

Acho que o “caminho” que estou experimentando é que as trajetórias tradicionais são cada vez menos frequentes, no sentido de que se pensava que fazer uma faculdade determinava uma carreira da vida toda. As escolhas são diárias; as carreiras mais interessantes são cada vez mais interdisciplinares; os trabalhos e profissões existem na medida em que se sabe identificar os problemas e desafios e se oferecem soluções criativas e eficazes.

Em ciência, os trabalhos de maior impacto são aqueles que conseguem dar respostas inovadoras para problemas simples, e geralmente essa visão “fora da caixa” vem da interdisciplinariedade e colaboração, das experiências e visões diversas.

Não é um caminho fácil e cômodo, mas é definitivamente fascinante poder se reinventar e estrategizar possibilidades de como utilizar todos os recursos e ideias para criar algum valor.

 


 

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BRAVE - Brasileiras do Vale

Integrar a mulher brasileira imigrante e fortalecer a comunidade brasileira feminina no exterior.

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2018-01-19T16:14:50+00:00

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  1. […] painel desse ano, moderado pela Tatiana Hochbreg, seguiu mais uma vez o tema Reinventar –  um dos maiores valores da nossa plataforma. […]

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