A imigrante brasileira e o cuidado de si

A imigrante brasileira e o cuidado de si

Cuidado-de-si_FeaturedPensando sobre o tema “cuidado de si”, lembrei do desenvolvimento infantil e da dependência do bebê nos seus primeiros anos de vida.

No início, acontece uma simbiose entre o bebê e seu cuidador. Essa simbiose é necessária para a sobrevivência da criança nos primeiros anos de vida. E um bebê com sorte terá alguém, pai, mãe, seja lá quem for, com a capacidade de responder suas necessidades e favorecer seu desenvolvimento.

Aproximadamente aos dois anos de vida, o bebê, já com um vocabulário suficiente para expressar suas vontades, adota a palavra “não” como sua favorita. E segue repetindo “não” para quase tudo. “Não” para roupas que querem que ele vista, “não” para a comida que querem que ele coma, e assim vai. O que esse “não” representa tem uma importância fundamental. É esse “não” que permite que ele anuncie sua separação do outro, e as suas vontades. E é esse “não” que vai abrir oportunidades para que os desejos dessa criança se realizem, desejos esses que podem ou não coincidir com os desejos de quem está responsável por ela.

Claro que uma criança de dois anos vai precisar de muita supervisão e de um adulto suficientemente paciente para suportar os “nãos” e continuar firme, guiando e alimentando o desejo de autonomia que foi anunciado.

Por que estou falando sobre desenvolvimento infantil, quando o tema é  cuidado de si? Deixe-me explicar…

Quando penso nas nossas sociedades (brasileira e americana) e no momento cultural em que vivemos, percebo que as expectativas sobre o papel do homem e da mulher tem se transformado rapidamente.

As mulheres hoje são livres para conquistar sua independência financeira, homens e mulheres são livres para casar ou não casar, ter filhos ou não, ou seja, podem fazer as escolhas que lhe parecem mais convenientes.  Acontece que hoje as escolhas são tantas, que é de se esperar ansiedade quando estamos diante delas. Exemplificando, “trabalho fora, cuido dos filhos exclusivamente, tento fazer os dois, cuido do meu corpo para que ele seja “jovem, magro, e sexy”, cuido da minha casa (aqui nos Estados Unidos, cuidar da casa, nos padrões de limpeza e organização esperados no Brasil, não é uma tarefa simples), me caso, me descaso, viajo pelo mundo, me profissionalizo, faço de tudo um pouco”

As expectativas sociais – infinitas – que trazemos do Brasil nem sempre combinam com as expectativas da sociedade americana a qual estamos inseridas. A impressão que tenho é que diante desse mundo de regras e expectativas que se estabelecem, as pessoas, seus desejos, e tudo que elas tem de mais íntimo, mais rico, mais interessante, se perde em uniformes de conduta social. Ou seja, seguimos modas parecidas, e nos comportamos de forma convencional na maioria das vezes. Os valores culturais vão se acumulando, quase nunca sendo substituidos ou atualizados, e os desejos íntimos perdendo prioridade. E aquele seu sonho de cantar? E aquele seu amor pela dança?

Hoje existe a possibilidade de troca de funções sociais. Antigamente era a mulher que se responsabilizava por cuidar da alimentação da família, limpeza e organização da casa, da educação dos filhos (aqui na Bay area, educação dos filhos tem dado muito o que falar – mas falamos disso numa outra ocasião). Tem também o cuidado com o corpo, a carreira profissional, os seus pais idosos lá do outro lado do mundo, e a vida social da família, a lista é longa…

É como se estivéssemos presos num campo de expectativas, de obrigações que vão se somando a outras obrigações. Se de fato somos livres, por que continuamos presos e obedientes a tantas regras? Minha impressão é que muitas vezes é conveniente esquecer aquela palavra fundamental que aprendemos tão cedo na vida. Às vezes é conveniente não dizer “não” e com isso abrir mão dos nossos desejos.

Ser dono de si, dizer “não” para a expectativa do outro e para valores culturais é se responsabilizar pelos caminhos/escolhas que fazemos.

Acho importante dizer que as escolhas que fazemos, considerando o contexto, nosso momento, nossas possibilidades, são quase sempre as melhores escolhas que poderíamos ter feito.

Mas olhar para nossas vidas e assumir a responsabilidade pelos nossos passos é sair do campo das expectativas (onde eu posso responsabilizar o outro) e cair no campo da angústia (o negócio é com você mesmo!). Quem consegue dar conta dessa angústia, ganha a oportunidade de exercitar o verdadeiro olhar para si, talvez um olhar empático para si, e quem sabe seguir naquele caminho, que começou quando tinhamos uns dois anos de idade, e que tudo indica, apontava na direção do verdadeiro cuidado de si.

Abraço,

Luciane de Mello, ASW

Luciane começou sua carreira na década de 90, como psicóloga clínica em ambulatório de saúde mental e enfermaria psiquiátrica quando vivia no Brasil. Nos EUA ela fez mestrado em Serviço Social, e continuou se especializando em psicanálise.
Atualmente,  dedica-se a prática de psicoterapia psicanalítica, atendendo crianças, adolescentes e adultos no seu consultório em Campbell, CA.

 

 

 

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Integrar a mulher brasileira imigrante e fortalecer a comunidade brasileira feminina no exterior.

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2017-11-18T20:30:14+00:00

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