Minha vida mudou e minha rotina também. E agora?

Minha vida mudou e minha rotina também. E agora?

miniatura-destaque-blog-15-04-16-1-pngresizesmallwidth832por Gabriela Brasil
Era carnaval de 2015, ou pelo menos assim chamávamos o mês de fevereiro inteiro no Rio de Janeiro. Um dia comum de quarenta graus de mais estudos pro meu marido e de trabalho pra mim. Naquele dia me lembro de pedir pra ele não ir pra PUC porque queria ser a primeira pessoa a parabenizá-lo quando o resultado chegasse. Ele riu, porque sabia que o resultado poderia chegar a qualquer momento, inclusive naquele dia. Em 2014, meu marido passou por um processo de application para PhD nos Estados Unidos, enviando materiais para várias das melhores universidades do país. Estávamos ansiosos porque alguns amigos já tinham sido contactados por outras faculdades. E justo no dia que eu pedi pro meu marido ficar no Home Office comigo, aconteceu. Ele recebeu um email de Princeton parabenizando pela aprovação na Universidade. Comemoramos muito e entendemos: tudo iria mudar.

Nos dias que se seguiram vivemos um misto de festa, planos e dúvidas. Meu marido recebeu os resultados de outras Universidades americanas e estava decidido: iríamos mudar no segundo semestre de 2015 para os Estados Unidos. Poucos meses e tudo foi acontecendo muito rápido. Em Abril ele deu o aceite na Universidade de Stanford – no coração do Vale do Silício.

Garota, eu vou pra Califórnia…

Assim como várias esposas que acabam vindo para o Vale, eu também deixei meu emprego, também mudei minha rotina, também tive que repensar meus planos. Em agosto de 2015 eu estava vindo para os Estados Unidos sem permissão de trabalho, sem clientes, sem conhecer ninguém, prestes a ficar longe das pessoas que amo, falando uma língua que não é a minha. Foi fácil? Não. Valeu a pena? Tudo vale quando a alma não é pequena, certo?

Tive muito receio e muita dificuldade de adaptação no início. Demorei para montar uma rotina que me deixasse satisfeita. Mas parada? Ah! Isso não.

Quando a gente para e fica olhando pro teto lembrando do que ficou pra trás deixamos de aproveitar o que há de melhor ao nosso redor.

Em pouco tempo eu percebi que morar em um outro país era a minha oportunidade de crescer como pessoa. E se antes eu usava o meu tempo com determinadas coisas que não estavam mais disponíveis agora, era necessário achar onde que eu investiria o meu tempo dali pra frente.

Na hora de uma mudança de vida, o fundamental é analisar quais são os recursos que você possui que podem te ajudar nessa mudança: dinheiro, tempo, disposição, humor, contatos. No meu caso eu tinha tempo e muita disposição. Então o que eu fiz? Fiz o que estava ao meu alcance: levantei a bunda do sofá. Fui atrás da minha adaptação. Fui a encontros sem conhecer ninguém, aliás o primeiro evento que participei foi do grupo Latinas in Tech em SF e a primeira pessoa que conheci no Vale foi uma alma boa que me ofereceu carona até SF nesse dia. Chegando lá eu estava mais perdida que vegano em churrascaria. Foi assim em alguns eventos que se seguiram e eu comecei a conhecer mais pessoas, fazer mais contatos, estabelecer mais amizades. Usei meu tempo e minha disposição em função da minha adaptação.

Ao aprender a conviver em uma nova língua que não é a minha eu aprendi a ouvir mais as pessoas. Sabendo que não poderia trabalhar (ainda) em solo americano, eu mudei todo o meu trabalho e construí um negócio digital, que já era uma antiga vontade minha para poder trabalhar de qualquer lugar. Foi difícil nos primeiros meses. Passei o final do ano passado inteiro trabalhando sem ganhar nenhum centavo. Foi quando os clientes começaram a aparecer e eu comecei a ajudar pessoas online no Brasil, em Londres, na Austrália, no México.

Minha permissão de trabalho nos EUA ficou pronta em Maio desse ano, depois de um processo não muito simples. Mas agora eu posso abraçar as pessoas aqui também com o meu trabalho. Quando a gente se esforça não tem nada que seja impossível. É incrível como tudo começa quando a gente decide simplesmente dar o primeiro passo, e depois vários primeiros passos seguidos um do outro. Eu precisei de um tempão pra me adaptar, falar com as pessoas, entender o local onde estava morando e conseguir fazer as mínimas coisas como resolver um problema do banco pelo telefone, é verdade. Mas foi pra jogar na minha cara aquilo que eu canso de repetir: coisas boas levam tempo.

Na nossa vida, sempre vamos ser chacoalhados pelas mudanças. Serão várias ao longo da nossa jornada: a mudança de país, a perda de uma pessoa querida, a chegada de um filho, a saída de um filho, um novo casamento, uma separação, um novo mestrado. E todas essas mudanças podem ser complicadas, doloridas e desafiadoras. Tudo isso nos faz crescer, mas nos deixa perdidos também. Por isso, considero que o grande segredo para encarar bem as mudanças é entender que elas fazem parte da nossa vida. E que para ter uma vida melhor precisamos nos entender com as nossas mudanças a ponto de abraçá-las e nos comprometermos com elas.

Muitas das brasileiras que conheci aqui no Vale possuem uma história parecida com a minha. Vieram para acompanhar o sonho de seus companheiros ou companheiras e acabaram encontrando os seus próprios sonhos também por aqui. Algumas diminuíram a carga horária de trabalho e ganharam mais tempo com os filhos, outras descobriram um projeto na qual se envolver e crescer no Vale, outras decidiram voltar a estudar, praticar esportes ou desenvolver outras habilidades. Em comum, todas temos este aspecto:

Precisamos reorganizar nossa rotina aqui para nos sentirmos mais em casa.

Pensando nisso, hoje eu trouxe algumas dicas que me ajudaram nessa jornada de reorganizar minha vida depois da mudança. Vamos a elas.

1 – Fazer um planejamento de adaptação

Antes de mudar eu conversei com algumas pessoas e amigas que tinham passado pelo mesmo processo e todas elas me disseram que a adaptação levaria um tempo, que era fundamental pra mim desligar nos primeiros meses e explorar o local onde eu morava. Por isso, assim que eu cheguei no Vale eu montei um plano de adaptação que basicamente incluía uma série de projetos que me possibilitaram explorar e conhecer mais da cultura do local onde moro. Nos três primeiros meses me ocupei de ir a cafés observar pessoas, me enfiar em palestras pra ouvir o inglês, andar nas ruas para conhecer o bairro, ir a feiras, shoppings, supermercados, etc. Todo esse planejamento me ajudou a entender melhor a cultura do local onde estava morando e me proporcionou vários aprendizados. Além de me trazer mais segurança sobre o ambiente que vivo, claro. Dentro desse planejamento de adaptação também incluí organizar minha casa de forma a deixá-la mais aconchegante e com carinha de lar. Coloquei elementos do Brasil pra nos lembrar de casa. Fotos espalhadas para vermos nossa família todos os dias. Nossa casa, nosso refúgio.

2 – Estudar inglês na comunidade

Acho que estudar a língua é uma oportunidade não apenas de se sentir mais confortável e inserido na cultura local, como também é ótimo para conhecer pessoas novas. Se inscrever em um curso de inglês é uma boa ideia, mas também é válido se matricular em alguma aula sobre um tema que você goste e aproveitar para aprimorar seu inglês estudando este tema. Eu acabei entrando nos cursos da Palo Alto High School de Inglês e fiz alguns cursos curtos também aqui em Stanford.

3 – Avaliar áreas de responsabilidade

A gente muda o tempo todo e as situações que vivemos também interferem nos planos que fazemos e nas áreas que estamos dando atenção no momento. A situação econômica do país interfere, emergências na família, aparecimento de novas oportunidades, adiamento de metas, exclusão de projetos, tudo isso pede um novo olhar sobre o planejamento. E planejamento, claro, não é pra ser congelado. Ele pode e vai sofrer alterações sim ao longo do tempo, porque o tempo não para, mudanças acontecem com frequência e muitas vezes o controle que a gente tem não é sobre as situações e sim sobre o nosso planejamento apenas.

É válido se questionar com frequência se os planos são reais, se você tomou as atitudes necessárias, se está investindo o seu tempo nas atividades certas, se os seus objetivos estão sendo atendidos.

É importante então pensar nas suas áreas de responsabilidade, ou seja, as áreas de sua vida que você é responsável por tocar pra frente. Uma boa forma de pensar nessa estrutura é fazendo um mapa mental no papel. Escreva o seu nome no centro da folha, puxe duas frentes: pessoal e profissional e vá inserindo todas as áreas que você precisa dar atenção na sua vida. Quais são as metas que se relacionam a cada uma dessas áreas?

Veja um exemplo das minhas áreas de foco pessoal nesse link

Áreas de foco pessoal – Gabriela Brasil

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4 – Estabelecer metas

Se você tiver muitos objetivos para dar conta é capaz que não consiga realizar nem o mínimo. Então decida onde você quer focar sua atenção nos próximos meses. As metas devem ser escritas para você no futuro e é saudável compartilhar com outras pessoas, pois esse apoio social pode te impulsionar a tocar os seus projetos para frente.

Há algumas razões que fazem com que a gente não cumpra os objetivos que traçamos, tais como:

Estabelecer metas muito abrangentes – Se uma das suas metas for, por exemplo: “se tornar mais organizado”, esta é uma meta muito ampla. Uma meta mais realista seria “estabelecer um fluxo de organização que funcione diariamente para execução de tarefas”. Outro exemplo, “passar mais tempo com a família” é abrangente, mas “passar x horas com a família durante a semana” é mais palpável.

Estabelecer muitas metas – Tem gente que no mesmo ano quer parar de beber, ser mais organizado, parar de fumar, arrumar um namorado, correr uma maratona, escrever um livro, terminar o mestrado, começar a tocar um instrumento, reformar a casa. CALMA. Você é só uma! Se você tem um monte de coisas na sua lista, pode correr o risco de não fazer nada!

Estabelecer metas não realistas – Se você gosta muito de doces, não vai conseguir parar de comer açúcar de uma hora pra outra! É bom colocar o pé no chão pra entender como começar aos poucos. Ao invés de “parar de comer açúcar”, que tal um “substituir chocolate por frutas na hora da sobremesa”?

Ser pessimista – Você precisa de metas realistas para acreditar e fazer de tudo para que elas aconteçam. Quando você aproxima suas metas da realidade, você traz elas pro seu mundo e consegue ser mais positivo em relação a realização.

Então, ao esclarecer quais áreas merecem sua atenção, é fundamental esclarecer quais são seus objetivos a serem alcançados e os projetos relacionados a eles.

5 – Montar a rotina ideal

Se você segue um plano com certeza consegue executar mais e melhor durante o seu dia, mas não apenas isso, você sente que está realmente fazendo algo funcionar! É claro que cada pessoa precisa achar a receita do seu dia ideal e esse processo leva sim um tempo. É o tempo de planejar, de organizar os ambientes ao redor para poder trabalhar com mais tranquilidade e eficiência, é o tempo de observar e traçar estratégias, testar ferramentas que auxiliem na produtividade. Estabelecer rotinas de excelência é algo que vai auxiliar este processo. Visualize o seu dia ideal. Como ele seria?

O meu atualmente, é composto dessa forma:

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O dia ideal é um dia que você se dá um 10, mesmo que não tenha conseguido cumprir tudo, pois sabe que deu o melhor de você naquele dia e trabalhou de acordo com o seu plano. É apenas sobre isso que temos controle: das nossas decisões. E para ter um dia excelente muitas vezes você vai ter que abrir mão e dizer não a várias outras coisas legais. Para viver com mais propósito é preciso dizer mais nãos.

Descubra quais são os blocos de tempo que compõem o seu dia e lembre-se de reservar períodos para suas rotinas e atividades de lazer e descanso. Considere que tão importante quanto a rotina é ser capaz de quebrá-la intencionalmente também. É válido sim ter mini folgas, sabáticos, sonecas, cochilos, férias, pausas estratégicas. Rotina é legal, mas essencial também é por o pé no freio. Pausar permite qualidade no trabalho. Produtividade tem a ver com fazer conexões e precisamos de tempo e reflexão para fazê-las.

Minha vida mudou e minha rotina também! E elas continuarão mudando, ainda bem. A possibilidade de começar do zero não me assusta, muito pelo contrário: me anima! É a oportunidade de fazer diferente e melhor. Me deixa tranquila saber que sempre que uma mudança vier, a organização estará ali disponível e disposta para me ajudar. E ela está prontinha, esperando por você.

Organize, confie e se jogue!

Um beijo e até a próxima

gabrielabrasil_vidadigitalorganziada_alta

gabriela-brasil2xGabriela Brasil é graduada em Cinema e Mídias Digitais pelo Instituto de Ensino Superior de Brasília. Atua na organização de ambientes digitais, além de prestar consultorias e cursos de Organização do Tempo e Organização Digital. Especializada em Organização Residencial e Office pela OZ, de São Paulo, também é certificada em Administração do Tempo pela FGV, do Rio de Janeiro. Parceira da empresa Oz Organize sua Vida, a frente do Curso de Organização Digital para formação de profissionais de organização. Atualmente é profissional membro da NAPO – National Association of Professional Organizers (EUA) e Evernote Business Certified Consultant. Mora em Palo Alto, na Califórnia, de onde atende seus clientes e alunos no Brasil via web.

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2017-11-18T19:29:06+00:00

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