O meu primeiro mês – Estranho seria se fosse tudo fácil!

O meu primeiro mês – Estranho seria se fosse tudo fácil!

 

por Jéssica Ghieh

Jéssica, mineira de Beagá, 25 anos. Cheguei por aqui com duas malas e uma caixa de sapatos em 3 de março de 2017, há exato um mês. Apesar de ter conhecido a cidade nas últimas férias, numa passagem rápida de 5 dias, eu não sabia muito o que esperar de um lugar tão progressista e diferente de tudo que eu já tinha vivenciado antes – mas a expectativa era boa, é claro! Deixando a família, os amigos, uma parte do coração e 25 anos de boas lembranças pra trás, vim pra cá em função de uma transferência profissional, pela mesma empresa que já trabalhava há quase quatro anos no Brasil, com meu título de “inglês fluente” no currículo. Mais do que isso, vim realizar um sonho antigo de ter uma experiência internacional, motivada também por um processo analítico (sim, terapia!) ao qual me dediquei nos últimos dois anos que mudou a minha vida. Mal sabia eu que somente a preparação dos meses anteriores à minha vinda não seria suficiente pra entender todas as mudanças que estavam por vir.

Confesso que não tive o fator deslumbramento ao meu favor. Já tinha morado nos EUA, então sabia mais ou menos o que me esperava por aqui em termos de qualidade de vida, praticidade e todas as regalias que o primeiro mundo te proporciona. Cheguei aqui com os dois pés no chão. E de cara já deu pra notar: a adaptação é complicada.

Tive dificuldades em abrir a conta no banco, entender os rótulos do supermercado e aprender que o inglês daqui em nada se assemelha com aquele aprendido nos episódios de Friends. Chineses, indianos, russos e gente de todo o mundo te fazem ouvir cada hora um sotaque. Também não foi fácil não ter ninguém pra ligar num domingão à noite pra comer alguma coisa e jogar conversa fora, ou ainda chegar em casa e ter que falar mais inglês depois de um dia cansativo de trabalho. De repente, eu era a Jessica (sem o acento dessa vez, é claro), the new brazilian girl. E, olha, sei que pode soar como exagero – ah, mas você tá na Califórnia. Mas quando você resume sua vida a duas malas e se dispõe a começar de novo, estranho seria se estivesse tudo às mil maravilhas, não é mesmo?

Aos poucos, consegui entender e assimilar uma coisa muito importante: cada um tem seu processo de adaptação e o seu tempo. Meu primeiro mês foi um choque de realidade e de cultura, e muitas vezes tive a sensação de que eu já tinha, sim, saído do Brasil, mas que ainda não tinha chegado aqui completamente. Por isso, a primeira coisa que resolvi colocar na minha cabeça foi: pare de seguir aquelas regras de que “normalmente as pessoas demoram 6 meses a se adaptar”, “levam 2 anos pra você se sentir em casa”, dentre outras várias que qualquer pessoa que já se mudou de país tende a falar (sempre com uma ótima intenção de ajudar, eu sei).

Ao invés de esperar o tempo passar, tentei entender quais são os meus interesses e o que iria me tirar de casa. Yoga? Futebol? Trabalho voluntário? Turismo? Museus? Se nada ia me tirar de casa, então era dia de coberta e netflix. De um jeito ou de outro, busquei respeitar o meu tempo e buscar algum sentido nessa mudança. No primeiro mês, vivenciei  várias situações que me fizeram colocar em cheque todo o sonho e questionar se, de fato, eu deveria estar aqui. Aquela sensação conhecida de qualquer imigrante de “o que é que eu tô fazendo aqui”.

Dia após dia, as coisas foram ficando mais fáceis, os rótulos mais claros e o inglês mais natural. O sotaque não, acho que esse não vai a lugar algum, rs.

Assim, consegui vencer meu primeiro mês. Com alguma sorte, cara-de pau e ajuda de muita gente legal, fui tomando coragem pra fazer coisas que jamais faria no Brasil só pra conhecer gente diferente e abrindo o coração pra terrinha nova. Eu me mudei e continuo mudando a cada dia. As dificuldades aparecem diariamente e de diferentes formas, mas a cada dia sinto mais confiança pra resolver o que vem pelo caminho. Mas acho que isso é conversa pra outro post!

Jéssica, mineira-cruzeirense, feminista, ex-blogueira mirim e maquiadora pseudo-profissional, graças ao youtube. Filha de mineiro com cearense, irmã de um nerd digital e tia/madrinha da criança mais legal do mundo. Trabalha com consultoria e veio pra San Francisco a trabalho no auge dos seus 25 anos, mas mal sabia que o trabalho apenas seria uma pequena parte da mudança. Sagitariana, ama carnaval e samba, boas viagens e colecionar histórias, as quais sempre anota no caderninho no criado-mudo ou até no bloco de notas. Também é uma amante do meio digital, ao mesmo tempo que acredita que uma carta bem escrita vale muito mais que qualquer e-mail. Dentre seus maiores sonhos, aprender a andar de bicicleta está no topo da lista.

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BRAVE - Brasileiras do Vale

Integrar a mulher brasileira imigrante e fortalecer a comunidade brasileira feminina no exterior.

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2017-11-18T19:20:16+00:00

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One Comment

  1. Juliana May 10, 2017 at 9:50 pm - Reply

    Que delícia de texto, é tanta verdade e amor que você passa nas palavras que dá prazer ler, e torcer por você, nessa jornada linda que é a vida.
    Seja feliz, onde estiver.
    Torcendo muito por você. Ta lindo de ver sua felicidade.

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