Por Estefânia Barsante*

Perdi a conta de quantas vezes eu já ouvi a frase “me sinto como uma criança morando no exterior. Escuto dos meus clientes expatriados, de amigos estrangeiros e até uma vez conversando com um desconhecido no aeroporto.

Posso dizer que é um sentimento bem comum: quando estamos fora do nosso país e cultura, em muitas situações, podemos nos sentir n perdidos e sem saber como agir. E, não entender o que está acontecendo à sua volta faz com que a gente se sinta como uma criança.

Um motivo tangível que causa este sentimento é o nível de conhecimento da língua estrangeira. Quando temos essa barreira, não conseguimos ler instruções, pedir informações, e nos sentimos por fora de conversas do dia a dia. Até falar com o caixa de um supermercado pode ser assustador.

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Um segundo motivo – não tão tangível – mas que também impacta muito, é a diferença cultural.

A pegadinha é que quando temos conhecimento da língua estrangeira, acreditamos que tudo está resolvido e que conseguimos nos comunicar sem problema nenhum.

No entanto, após os primeiros dias, já se pode perceber que “entender palavras” e “entender o significado e contexto das ações” são coisas muito diferentes.

Para os autores Matsumoto e Juang (2013), Cultura é: um sistema único de informação e sentido de um grupo específico que é transmitido de geração para geração, e que permite ao grupo atender necessidades básicas de sobrevivência e coordenar comportamento sociais com o objetivo de buscar felicidade e bem-estar.

Esta descrição de Cultura pode parecer teórica, mas tem efeitos bastante práticos.

Pense comigo: no país em que você está hoje, na hora de se cumprimentar, as pessoas se abraçam, apertam as mãos ou se curvam? O local de trabalho é mais formal ou descontraído? As pessoas costumam falar o que estão pensando, são mais indiretas ou nem falam nada? Como as pessoas se tornam amigas? E até, o que consiste amizade no país que você está?

Um dos maiores desafios de ser expatriado é que não temos o mesmo “sistema de informações” que as pessoas à nossa volta. Então, cedo ou tarde, nós nos perdemos nessa tradução cultural. Ações que tem um significado no seu país de origem, tem outro diferente no país de destino.

Tenho uma história bem ilustrativa sobre isso: um colega de trabalho norte-americano estava conversando de forma descontraída e fazendo piadas durante o almoço. O seu colega brasileiro assumiu que ele (o norte-americano) estava abrindo a porta para uma amizade e o convidou para um churrasco na sua casa no final de semana. O norte-americano fingiu não ouvir e mudou de assunto rapidamente, ainda em tom descontraído. O brasileiro não entendeu nada, ficou pensando o que tinha feito de errado e até ficou um pouco magoado.

A confusão aconteceu porque nós, brasileiros, entendemos que “casual e descontraído” significa “gosto da sua companhia, vamos ser amigos”. No entanto, isso são coisas bem diferentes para os norte-americanos.

Esse tipo de interação esquisita traz à tona o sentimento que falei lá no início de que “me sinto como uma criança”. Temos a percepção de que sabemos as intenções da outra pessoa, criamos expectativas, mas por vezes entendemos tudo errado.

Então, o que fazer? Eu sei falar a língua, mas como faço para superar a diferença cultural?

Compartilho por aqui algumas sugestões:

  • Leia sobre o país onde você vive: sua história e o que valorizam. Você não tem ideia o quanto aprende ao entender o significado dos feriados nacionais, por exemplo. Um bom ponto de partida é a série de livros Culture Smart – tem sobre vários países.
  • Acompanhe as notícias locais, converse com pessoas locais. Melhor ainda, tenha um “guia cultural”, alguém local em quem você confia e que pode checar o sentido dos comportamentos que você não entender.
  • Seja curioso e observe o PORQUÊ as pessoas fazem o que fazem. Não somente seus comportamentos, mas as intenções por trás deles.

E nunca tire conclusões precipitadas.

*Este texto foi publicado originalmente em inglês e faz parte da série Abroad: artigos instigantes feitos por uma expatriada para outros companheiros desta aventura que é morar no exterior.

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