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  • Breve comentário sobre licença maternidade na Bay Area

    Breve comentário sobre licença maternidade na Bay Area

    por Luiza Vidal Ragil

    Um dos meus primeiros desafios durante a gestação do meu filho não foi o sono, os enjoos nem a avalanche de sentimentos. Foi entender na prática como funciona a licença maternidade na Califórnia, mais especificamente em San Francisco. Em torno das 20 semanas de gestação, quase nada era muito concreto, não tinha barriga, não tinha quartinho ainda, mas tinha minha ansiedade em entender como funciona a bendita licença maternidade. É que eu já esperava engravidar, nossa gravidez foi super desejada, então a licença já estava ali no meu radar, eu já tinha ouvido falar muito (na maioria das vezes mal) do assunto.

    Este é um relato da minha experiencia pessoal e não deve ser considerado aconselhamento profissional nem muito menos verdade absoluta. A mensagem que eu realmente gostaria de compartilhar é: procure se informar. Conheça seus direitos e exerça-os, não tenha medo, nem vergonha. 

    Ao longo da minha gestação as perguntas para as quais eu tentava encontrar respostas eram mais ou menos as seguintes: Quais eram as licenças a que eu teria direito? Quanto tempo durariam? Qual a diferença entre essas licenças? Todo o período de licença é remunerado? 

    De início, após oficialmente comunicar a empresa que eu estava gravida, tive uma reunião com uma pessoa representante do time de Recursos Humanos, que me deu uma visão geral sobre as licenças e me tirou algumas dúvidas. 

    Mas, na verdade mesmo, o caminho foi facilitado por amigas e colegas que já tinham passado pela experiencia recente da licença, e me ajudaram e aconselharam e muitas vezes acolheram. E eis aí o que me motivou a escrever este texto: quem sabe eu posso facilitar de alguma forma o caminho de alguma futura mamãe?

    A premissa maior e que é trabalhoso, mas vai valer a pena. Dito isso, vamos lá.

    O estado da California garante dois tipos de licença parental. O primeiro se chama State Disability Insurance (SDI), ou seja, sim, licença por invalidez e se aplica somente a mãe-parturiente. A ideia por detrás dessa licença com esse nome curioso é especificamente cobrir o período pós-parto de recuperação cirúrgica. Nesse sentido, o tempo de duração da licença depende da via de parto. Se o parto for cesárea são oito semanas de licença, se for parto normal, seis semanas. Além disso, a licença pode ter início antes do seu bebê nascer, por volta de 36 semanas de gestação, desde que haja uma justificativa médica para tanto. Essa justificativa médica na minha experiencia não precisa estar relacionada a algum risco, depende muito mais de uma conversa franca com sua médica e da avaliação dela. Se a licença SDI começar antes do nascimento do bebê não prejudica o gozo das seis ou oito semanas após o nascimento.  

    É importante mencionar que a primeira semana da SDI não é remunerada, é chamada de waiting period. Algumas empresas têm políticas internas que cobrem essa falta de remuneração do estado. Após o decurso do waiting period, o estado passa a pagar parcela da sua remuneração e o seu empregador o restante. 

    Não é incomum que os empregadores recorram a seguradoras para cobrir esse período da SDI. Foi o meu caso. Quem estava pagando a parte da empresa do meu salário durante a SDI era uma seguradora, e eu tive que enviar uma serie de documentos diretamente para eles.

    Uma vez que a SDI acaba, de forma razoavelmente simples você migra para a segunda licença, que tem duração de oito semanas e se chama Paid Family Leave (PFL). Como o nome indica, essa licença se aplica à família, o que significa que os pais têm direito a usufruir dela também. E convenhamos que essa uma ótima notícia para nós brasileiras. No Brasil, pais têm direito a licença paternidade de cinco ou no máximo vinte dias, uma legislação completamente obsoleta e injusta. De forma geral, podem beneficiar-se da PFL todas as pessoas com vinculo empregaticio e mesmo quem não estiver empregado mas estiver em busca de emprego. Não possuo maiores informações sobre esta ultima possibilidade (quem esta ativamente procurando por emprego) pois esse não era meu caso.

    Vale mencionar que para fazer jus às licenças, você deve ter contribuindo com o California State Disability Insurance (CASDI) por pelo menos um ano, mas que não precisa ser um ano ininterrupto. Se você tem vínculo empregatício e é empregada em tempo integral é muito provável que esteja contribuindo com o CASDI. No seu contra-cheque ou W2 o CASDI e irá aparecer como uma das deduções do seu salário, junto com o imposto de renda federal, estadual, contribuição previdenciária, etc. Em outras palavras, quem trabalhou por tempo integral por 12 meses, ininterruptos ou não, muito provavelmente terá pago o CASDI.   

    Você também terá a opção de eleger como deseja receber a parcela da sua remuneração que será paga pelo estado da California durante a SDI e a PFL. As opções são cheque, cartão de débito ou depósito em conta corrente. Fato curioso aconteceu comigo: eu optei por receber através de depósito em conta corrente, porém, lá pelas tantas da minha licença, por nenhuma razão aparente chegou um cartão de débito por correio na minha casa e eu passei a receber através de depósito nesse cartão. Para ser bem sincera, naquele momento essa era a última das minhas prioridades então eu só aceitei e passei a usar aquele cartão. E deu certo.

    Um aspecto singular de todo o processo é que é você quem deve percorrer todo o caminho das burocracias para a licença, e não necessariamente seu empregador. O que quero dizer e que você é responsável por se inscrever nos sites do estado da California, especificamente no site do Employment Development Department (EDD) a agência do estado da California que lida com licenças, preencher os formulários, disponibilizar os outros formulários (e são muitos) para a empresa, para a seguradora, para as agencias do governo e para sua médica. Inclusive pós-parto. Mas veja bem, a maioria das pessoas com as quais que você irá tratar do assunto já está acostumada e lida com isso diariamente. Apesar de trabalhoso, isso não deve ser um entrave no seu processo.

    Durante praticamente todo o período de licença maternidade você também terá direito a estabilidade no trabalho, que é garantida por uma outra legislação, a California Family Rights Act (CFRA).

    Finalmente, eu não sabia, mas agora você já sabe, durante o período de licença maternidade você para de contabilizar férias.

    Enfim, espero que esta pequena contribuição não deixe ninguém aflita nem (mais) preocupada. Na verdade, a intenção é o oposto disso. O objetivo é te dizer que o caminho é longo e muitas vezes trabalhoso, por isso tenha paciência, persevere, não tenha vergonha de perguntar, e, contando com uma mão ou ombro amigo, é totalmente possível usufruir da sua licença maternidade remunerada. Como em geral é a regra por aqui, este assunto também é tratado de forma bem pragmática: se você tem o direito, exerça-o e ponto final. 

    E a recompensa virá. A minha chegou no dia 8 de novembro de 2024, bem fofinho, rechonchudo e com muita saúde. 

    Veja aqui alguns links oficiais sobre o assunto:

    Paid Family Leave for Mothers

    Disability Insurance Benefits

    Paid Family Leave

  • Planejamento Sucessório – Motivos Para As BRAVEs Terem Um Plano Em Dia

    Planejamento Sucessório – Motivos Para As BRAVEs Terem Um Plano Em Dia

    Por Drielle Bennett

    Em termos diretos e bem simplificados para iniciar este texto, o planejamento sucessório inclui você escolher e deixar por escrito quem pode fazer o quê com relação à sua pessoa e aos seus bens caso você não possa responder por você ou quando a hora da sua partida chegar. Sendo um planejamento, significa que estas escolhas são feitas de forma antecipada e organizada, dentro das formalidades necessárias. De acordo com a sua vontade (desde que dentro da lei), significa que você tem o poder de apontar quem poderá fazer o quê. Às vezes as suas escolhas serão confirmadas por um juiz da corte de Probate, e às vezes não. Antes de mais conceitos e possibilidades, quero me apresentar brevemente.

    Meu nome é Drielle Bennett, eu sou a advogada de sucessões com licença para atuar tanto na Califórnia quanto no Brasil. Eu sou a fundadora do escritório Trust Brasil, A Professional Law Corporation. Por escolha própria, e por grande afeição que tenho por esta área do Direito, eu atuo exclusivamente na área de sucessões. Esta é uma área do direito civil que fundamentalmente diz respeito à transmissão de bens por herança. Aqui nos Estados Unidos esta área do direito civil tem um tribunal próprio, chamado Probate court. É lá em que advogados com o meu perfil atuam quando algum caso precisa ser decidido por vias jurídicas. Por mais que eu ame a corte de Probate, o meu
    trabalho é o de evitar antecipadamente que os meus clientes tenham que sequer se aproximar dos gastos e da demora que se acumulam quando Probate se torna inevitável. Veja por que, sabendo que este texto é meramente informativo e sem a inclusão de aconselhamento jurídico.

    Quando eu iniciei o meu escritório no ano de 2024 (minha experiência legal vem de dez anos antes), eu me comprometi a auxiliar a comunidade brasileira na Califórnia a entender mais sobre a importância de ter um planejamento sucessório. Como fazer isso? Com educação sobre o tema. Uma das formas de transmitir essas informações seria publicando um artigo para o grupo BRAVE, esta importante rede de apoio à brasileira imigrante. Esta ideia nunca me saiu da mente, e o tempo para produção se deu agora em que eu acumulo mais experiência prática sobre a nossa comunidade e uma melhor percepção da abordagem necessária. Isto se deu graças a meses de muita convivência,
    engajamento, cooperação e observação dos brasileiros na Califórnia. Como nos interessarmos sobre esse tema? Vou enumerar apenas 3 de muitos motivos para que não haja dúvidas sobre a urgência deste assunto.

    1 – O primeiro ponto é a necessidade de desmitificar a ideia de que planejamento sucessório seja útil apenas para pessoas ou famílias com muitos bens. Existe a ideia de que apenas pessoas muito ricas fazem testamentos. Porém, esta é uma ideia que vem da nossa história e realidade no Brasil, em que famílias abastadas transmitam riquezas por gerações por herança enquanto nós, pobres mortais, aguardamos anos a fio pelo trâmite de um inventário e pela resolução de longas brigas de partilha.

    Aqui (na Califórnia) a realidade é outra. Primeiro que a corte de Probate é sim muito cara e pode também demorar anos para resolver uma disputa de herança, mas não significa que tenha sempre que ser uma solução dolorosa. Os americanos têm por hábito se planejarem justamente para minimizarem tais custos e desgaste emocional, e isso tem a ver com se preservar o que se tem – ainda que pouco em termos de valores monetários. Assim, não são apenas famílias ricas que deixam documentos prontos com direções para a corte. Qualquer pessoa, inclusive solteiros, viúvos, famílias mistas – todos podem ter acesso às ferramentas de planejamento, uma para cada realidade. Não apenas testamentos. O importante é assegurar que o que se tem, o que se alcança, seja transmitido de forma eficiente.

    2 – Entramos então no segundo motivo. Se você ainda não sabia, agora esteja informada que o planejamento sucessório inclui listar quem pode tomar decisões médicas e financeiras por você, seja de forma temporária ou permanente caso você sofra um acidente, uma doença, ou passe por algum
    evento incapacitante em que você obviamente não terá como fazer as suas próprias escolhas.

    Isso significa que o planejamento sucessório não trata apenas de deixar tudo em ordem para a ocasião inevitável a todos nós, a morte. Você pode, e deve, pensar muito bem no que pode acontecer antes. Como estamos cansadas de ver por experiência própria ou nas notícias, situações inesperadas acontecem sempre, e podem afetar qualquer pessoa. Estas escolhas prévias para estes momentos podem ser feitas inclusive por meio de procurações. Não é qualquer procuração, com qualquer linguagem, pois é muito importante que as limitações corretas sejam feitas por quem se dispõe a dar tais poderes. Esse é um dos motivos pelos quais modelos genéricos são altamente desaconselháveis. São muitas nuances a serem consideradas.

    3 – Finalmente – por hora – a questão do status imigratório. Você não precisa ser cidadão americano para que tenha o direito de fazer um plano que seja válido. Muito pelo contrário – dependendo de como você se encontra neste país, algumas medidas deveriam estar no topo da sua lista de prioridades para uma vida mais tranquila e um pouco mais de paz de espírito enquanto navega a vida de imigrante por aqui.

    Para cada caso em particular existe alguma peculiaridade que deva ser seriamente considerada enquanto os seus documentos são preparados. Quase sempre, estas observações ocorrerão com base no valor e localização dos seus bens, e se você é ou pretende ser cidadã americana, se é casada com pessoa cidadã dos EUA ou de outro país. Estas considerações refletirão as consequências lá na frente, quando a hora chegar. Algumas delas são quanto e como as taxas de transferência de propriedade de pessoa falecida serão cobradas, e se a pessoa que você apontou para cuidar do que ficar por aqui poderá realmente atuar nessa importante missão, pois os Estados Unidos são muito protetivos de seus impostos e querem garantir que o que for devido seja devidamente recolhido.

    Neste momento, pode ser que você já esteja cheia de ideias e de motivos a considerar, então encerrarei este texto por aqui e espero ter feito você pensar sobre o assunto. Na sequência desta publicação eu começarei a trabalhar em um glossário de termos importantes no direito sucessório para que esta linguagem fique mais clara e acessível para a nossa comunidade. Estes termos
    estão nas entrelinhas de tudo o que escrevi aqui até agora.

    Continuem acompanhando os meus posts no BRAVE, e nos reconectaremos em breve. No meio tempo, caso você tenha ficado muito interessada e não queira esperar, aqui estão os meus contatos profissionais: (925) 222-7921, trustbrasilinfo@gmail.com, https://www.trustbrasil.info/, e https://bio.site/drielle (neste último você encontra o meu Instagram e o meu LinkedIn). Até logo!

  • Sobre cuidar de si e não deixar de acreditar nos próprios sonhos: Isadora Maria conta Sua História

    Sobre cuidar de si e não deixar de acreditar nos próprios sonhos: Isadora Maria conta Sua História

    A história da Isadora Maria Mendes de Souza é contada hoje em grande parte porque, anos atrás, ela se inspirou na trajetória de outra mulher imigrante. Ao ler sobre alguém que havia superado barreiras semelhantes, Isadora percebeu: “Qual a diferença entre eu e ela? Ela não parou de acreditar no próprio sonho.” Hoje, ela busca retribuir essa inspiração, compartilhando sua própria jornada para motivar outras pessoas.

    Atualmente, Isadora é Business Program Manager na Microsoft Corporation e lidera a construção do capítulo brasileiro da ONG The WIT Network com mais de 11,000 membros em 76 países ao redor do mundo. Ela trabalha com programas de mentoria e capacitação, empoderando outras mulheres a conquistarem seus espaços na área. Fora do corporativo, também organiza rodas de conversa usando cacau cerimonial, criando espaços de conexão e desenvolvimento pessoal e inter-religioso, com foco no sagrado feminino.

    Aqui estão 4 perguntas que fizemos para conhecer mais sobre a história da Isadora!

    1. O que te inspirou a deixar o Brasil e vir para os Estados Unidos?

    Minha decisão de morar fora foi uma combinação de fatores que se misturaram ao longo da minha vida. Cresci em Jundiaí, interior de São Paulo. Sempre estudei em escola pública, sem muitos recursos para aprender inglês além do verbo ‘to be’. Ao mesmo tempo, sabia que queria ser independente financeiramente e a tecnologia me trouxe algum tipo de retorno financeiro desde cedo.

    Comecei ajudando as pessoas do meu bairro a resolverem problemas com manutenção e configuração de computadores (TI). Mesmo entendendo que a tecnologia poderia me abrir caminhos, o trajeto não era muito claro para mim.

    Quando estava me preparando para o vestibular, eu considerava várias opções de carreira: psicologia, veterinária, computação, música, artes, direito e estudos literários. Sem ter exatamente uma rede de suporte presente e ativa, eu não sabia exatamente o que queria, mas sabia que precisava encontrar algo que me desse independência financeira e flexibilidade na rotina. A época do cursinho foi um período de pouco sono, muito trabalho, estudo, luto, depressão profunda e extrema ansiedade devido à incerteza. 

    Passei em todas as faculdades públicas para as quais me inscrevi e decidi seguir o curso de Ciência e Tecnologia, que era a opção mais próxima da minha casa, com o intuito de me formar em Engenharia Aeroespacial. Com o tempo, percebi que esse caminho não me daria as oportunidades que eu esperava. Voltei a estudar e passei na UNICAMP em uma das últimas chamadas. Comecei a estudar no famoso “Cursão”, com o intuito de seguir com Matemática Aplicada e Física Médica. Conforme as dificuldades financeiras de me manter em Campinas começaram a pesar e em estado depressivo pelo ano inteiro de 2012, decidi tentar a transferência para a USP em São Carlos. Passei na prova de transferência externa para Ciências da Computação, e finalmente quando pensei que tudo ficaria bem, enfrentei um choque de realidade. Muito mais homens (já com suas panelinhas) do que mulheres. Pouquíssimos alunos entendiam a realidade das pessoas que trabalham enquanto estudam para pagar o aluguel. Várias pessoas da minha turma vinham de escolas técnicas, tinham uma bagagem muito mais forte que a minha, e no geral, todos falavam inglês. 

    Comecei a aplicar para bolsas de estudo, para conseguir estudar inglês de graça e me preparar melhor para o futuro. Arranjei um emprego numa escola de idiomas, e em 2014 fui selecionada para a bolsa de estudos do programa Ciências Sem Fronteiras, quando passei um ano e meio na University of California, Riverside & Irvine.

    Quando consegui essa bolsa de estudos para os Estados Unidos, veio outro choque de realidade. E foi aí que meu sonho de trabalhar criando impacto em escala global, impactando milhões/bilhões de pessoas, realmente começou a acontecer.

    1. Como você chegou até a Microsoft e conquistou o cargo que ocupa hoje?

    Após o Ciências Sem Fronteiras, eu voltei para o Brasil para terminar a faculdade. Nos últimos dias no exterior, recebi uma carta de recomendação, o que afirmou a certeza dentro do meu coração de que eu voltaria pros Estados Unidos. Quando voltei para São Carlos, a falta de uma rede de apoio e suporte financeiro pesava bastante, mas segui em frente, trabalhando como monitora em um laboratório da USP, estagiária de uma startup, garçonete e bartender. 

    No último ano de faculdade, minha rotina estava bem cansativa. Eu estava com depressão profunda novamente, dívidas no cartão de crédito, e decidida que algo precisava mudar.

    O ponto de virada veio quando vi uma aluna da minha faculdade que também tinha dificuldades parecidas, e tinha conseguido um estágio com a AWS nos EUA. Quando li a história dela, eu pensei: “A diferença entre eu e ela? Ela não parou de acreditar nela mesma, no próprio sonho”. 

    Foi então que eu percebi que eu não tinha parado de acreditar. Eu só estava exausta. Mas os meus sonhos e anseios eram válidos, e eu precisava mudar minha estratégia urgentemente. Voltei a cuidar mais de mim, comecei a aplicar novamente para bolsas e consegui uma oportunidade de participar como scholar da Grace Hopper Celebration, um dos maiores eventos globais voltados para mulheres na tecnologia. Lá eu me inscrevi e entrevistei para estágios na Amazon, Facebook e em outras empresas que conheci por lá. 

    Após vários “nãos” nas entrevistas, fui ao estande da Microsoft no terceiro dia de evento, nos últimos 30 minutos da feira. Uma recrutadora olhou meu currículo e me deu um feedback importante: “O currículo está com alguns errinhos, é um modelo bem diferente do que normalmente é submetido para empresas americanas. Mas sua experiência é sólida, o seu inglês é ótimo, e você deve submeter seu currículo dentro dessa caixa. Acredito que, dos 20,000 currículos depositados, uma ou duas pessoas serão selecionadas para conversar com uma vice-presidente da Microsoft. Vai que é você?”. 

    Enquanto colocava meu currículo, a carta de recomendação e meu cartão de visitas com todas minhas informações na caixinha, fiz uma prece mentalmente afirmando e pedindo que todos os caminhos se abrissem.

    Meses após o evento, recebi a grande notícia: Fui uma das selecionadas para a mentoria. Na época, ela me deu uma lição valiosa que ainda hoje eu continuo aplicando e falando para outras pessoas: “Confie em você!”

    Isso me ajudou a passar nas entrevistas e consegui o estágio na Microsoft Corporation, mas quando recebi uma oferta para me tornar ‘full-time’ deles, eu não tinha visto americano de trabalho. Então transferiram minha oferta para a Microsoft Vancouver, no Canadá. Um ano e meio depois, tive a oportunidade de me mudar para os Estados Unidos com o visto L1B. Hoje, como Business Program Manager, lidero o planejamento comercial de programas de negócios e soluções de plataforma e tecnologia para o Microsoft AI Cloud Partner Program. 

    1. Além do seu trabalho na Microsoft, você também está envolvida em causas importantes, como fazer a diferença na conversa sobre igualdade de gênero, através do seu trabalho com a ONG The WIT Network. Pode falar mais sobre isso?

    Eu lidero o capítulo brasileiro da The WIT Network como voluntária, com foco em programas de desenvolvimento de liderança para mulheres e aliados. A The WIT Network é uma iniciativa global que promove a inclusão e o avanço de mulheres na tecnologia. Através do programa, consegui criar uma rede de suporte gratuita para brasileiras que estão buscando emprego na área, conectando pessoas a recursos, oportunidades e projetos. Uma das minhas maiores alegrias como mentora foi poder ajudar diretamente três pessoas a conseguirem empregos. O foco é fortalecer as parcerias entre Estados Unidos e Brasil e maximizar o potencial dos nossos diversos talentos.

    Com o The WIT Network, sou anfitriã do Happy Cacau Hour, um espaço de roda de conversa e mentoria que combina ferramentas de desenvolvimento pessoal com o uso do cacau cerimonial. Após muitos anos enfrentando dificuldades para me curar da depressão e ansiedade, decidi adotar um método mais holístico. Foi assim que, entre tantas terapias, ferramentas e plantas medicinais incríveis, descobri o poder do cacau muito além da alegria de comer uma sobremesa de chocolate. O cacau, em um contexto cerimonial, abre nossos corações e possibilita a auto exploração em um ambiente seguro; no contexto profissional, fortalece a liderança consciente, nos capacitando para manifestar melhorias em nossa realidade externa, começando de dentro pra fora. Também sou facilitadora do treinamento baseado nos livros “Tornando-se ATHENA: Oito Princípios da Liderança Iluminada” de Martha Mayhood Mertz e “Ouse Crescer” de Tara Mohr, o que me proporciona bagagem e treinamento formal para co-criar esse tipo de espaço onde as pessoas se sentem seguras para serem vulneráveis.

    Essas iniciativas me permitem misturar o melhor dos meus mundos. A expansão de consciência com foco em impacto cultural, social e ambiental através do acesso democrático à tecnologia.

    1. O que você recomendaria para mulheres que estão começando a buscar oportunidades no exterior, sobretudo nos Estados Unidos? 

    Manter o inglês afiado, mas sem precisar pedir desculpas se não estiver 100%, porque nem o dos americanos é! No mercado global, a sua gramática e sotaque não importam tanto quanto o que você traz para a empresa como diferencial. Celebre suas diferenças e permita que elas sejam sua fortaleza, não algo para diminuir sua confiança em quem você é.

    Encontre ONGs e faça trabalhos voluntários com impacto claro para agregar ao seu currículo, enquanto trabalha em coisas que você gosta ou causas que você se importa.

    Encontre mentores e aliados – ter pessoas que te apoiam e defendem o seu trabalho faz toda a diferença. É fundamental construir uma rede de confiança com pessoas que valorizam o seu potencial e ajudam a fortalecer a sua marca pessoal. Sem aliados, mesmo o melhor trabalho pode acabar sendo subestimado.

    Finalmente, como em tudo nessa vida, é importante entender que o aprendizado será constante. Revisar constantemente o que foi feito de forma intencional, os resultados e entender se a estratégia precisa mudar. Sempre encontraremos algo novo para melhorar. Grandes realizações externas acontecem quando nos alinhamos internamente. Grandes realizações externas requerem colaboração e senso de coletivo. É preciso ter muita humildade e atenção com o ego. 

    Por isso, o principal conselho que dou é: cuide-se! Tenha paciência com sua jornada de crescimento. Não se compare. Ame-se imperfeita. Aprenda a não estar sempre disponível, mas saiba estar disponível, ajudar e pedir ajuda. Priorize sua saúde mental, cultive o seu jardim todos os dias. E quando algo muito difícil surgir, lembre-se: “Eu não sei o que, mas essa dor/situação está tentando me ensinar”. Tenha hobbies, cante, dance, aprecie toda forma de arte e beleza que a vida nos mostra todos os dias. É preciso saber olhar pra dentro de si para aprender. Essa perspectiva ajuda a transformar desafios em oportunidades de crescimento com resiliência, cultivando paciência com o tempo certo para as coisas acontecerem. Acredite que você merece viver o seu sonho, e jamais se limite pela opinião alheia. Se o sonho é seu, a convicção tem que ser sua!

    Próximos capítulos: 

    A Isadora estará na Microsoft Reactor, no dia 12 de fevereiro em São Paulo, facilitando o terceiro Happy Cacau Hour com The WIT Network com convidados especiais. Vagas limitadas e oferecidas por ordem de inscrição, para participar se inscreva aqui.

    Caso você não tenha o membership do The WIT Network, inscreva-se na opção gratuita – selecione a comunidade “Brazil”.

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